Efeitos da violência no potencial feminino e medidas necessárias para criação de ambientes de trabalho seguros

Por Drª Cíntia Araujo, Professora e pesquisadora em Administração

Olá, leitores e leitoras do Denarius. E chegou o último artigo da série sobre a violência contra mulheres no ambiente de trabalho e no mundo corporativo.

Graças ao processo de conscientização das mulheres, fomentado por politicas públicas, iniciativas de movimentos sociais e feministas, como também, amplificação do debate do tema por meio das redes sociais, as mulheres tem conversado mais sobre o tema entre si e entre pessoas mais próximas.

Ainda assim, há um longo caminho a percorrer, quando falamos sobre a estrutura e cultura dominante no ambiente corporativo e profissional. ‘

Para se ter uma ideia, na ótima pesquisa conduzida pela Think Eva[1] – pesquisa já comentada no artigo publicado no dia 23/9, dá uma olhada [CCSdA1] – 78,4% das mulheres participantes acreditam que denúncias de assédio não dão em nada. Para a maioria, a área de RH não é vista nem como aliada e nem como suporte.

Esta sensação de “beco sem saída” não existe à toa. Em uma pesquisa sobre igualdade de gênero e raça em OSCs[2] (Organizações da Sociedade Civil) aponta que apenas 28% das OSCs declararam possuir canais para denúncia anônima para casos de assédio ou discriminação.

As empresas e organizações precisam conscientizar-se na necessidade urgente de criar e manter ambientes de trabalho seguros, afinal, os efeitos negativos da violência contra mulheres em seu desempenho profissional e em sua saúde física, mental e emocional são muitos.

1. Efeitos da violência

Os efeitos da violência contra mulheres são variados. Um deles é a retirada forçada das mulheres dos espaços, resultando em altos índices de absenteísmo[3], uma vez que as vítimas passam a se ausentar do ambiente de trabalho para evitar sofrer a repetição dos atos de violência. Muitas pedem demissão ou aposentam-se precocemente, apesar de precisarem da remuneração financeira para manutenção do seu sustento[CCSdA2] .  A violência contra mulher também causa efeitos psicológicos negativos em suas vítimas como depressão, ansiedade e desordem de estresse pós-trauma.

Certamente, a percepção das mulheres em relação à hostilidade nos espaços profissionais influencia profundamente no planejamento de vida e de carreira. Muitas desistem de uma determinada carreira, devido à possibilidade de sofrer assédio sexual, o que ratifica a segregação ocupacional em determinadas áreas de conhecimento, tais como a de exatas[4].

Além disso, a alta competitividade nos ambientes de trabalho e no mundo corporativo reforça estereótipos de gênero negativos que afetam negativamente as avaliações de desempenho das mulheres. O estereótipo do “sexo frágil” resulta na subestimação da competência das profissionais mulheres, fazendo com que estas tenham que trabalhar mais a fim de provar que são de fato competentes. Para piorar, a combinação destes fatores acabar por acirrar a competição entre as mulheres, uma vez que há escassez de oportunidades para este grupo[5].

2. Medidas de prevenção e combate à violência contra mulheres

A partir da análise dos pontos acima citados, elencamos algumas sugestões de medidas à violência contra mulheres:

  • Criação de redes e grupos de apoio que considerem as especificidades das mulheres quanto à sua raça, classe social, religião, identidade de gênero e outros aspectos;
  • Criação de espaços que proporcionem às mulheres momentos de contato com sua estética ancestral e étnica para reforçar sua autoestima e autoconfiança;
  • Implantação de políticas de prevenção à violência sexual nos espaços acadêmicos que envolvam as diversas perspectivas do universo feminino (raça, etnia, identidade de gênero, etc.);
  • Educar funcionários(as), gestores e executivos sobre a importância do registro de denúncias. “Frequentemente, a responsabilidade recai sobre a mulher, assim como a necessidade de arcar com as consequências[6]
  • Respeito ao nome social, uso do banheiro e aprendizado sobre identidade de gênero em todos os espaços;
  • Adoção de enfoque preventivo e paliativo: além de responder às denúncias de violência, é necessário criar iniciativas de cuidado físico e psicológico das vítimas de violência;
  • Estabelecimento de política de atendimento institucional que aprimore a orientação quanto à triagem e investigação de casos de violência sexual, assédio, discriminação e outras formas de agressão com a implantação de canais formais de denúncia anônima e sigilosa, disponíveis para estudantes, professoras e demais funcionárias;
  • Desenvolver programas de treinamento para todos os funcionários para conscientização sobre temas voltados a conscientização de estereótipos, discriminação (classe, raça, etnia e gênero).

[1] Think Eva. (2022). Assédio no Contexto do Mundo Corporativo – Think Eva. Think Eva,. https://thinkeva.com.br/pesquisas/assedio-no-contexto-do-mundo-corporativo/

[2] Vojvodic, A., Fontaland, A., Araújo, C. C. S. de, Bulgarelli, L., Yaredy, T., Andrade, L. V. R., & Rodrigues, L. (2022). Governança inclusiva no terceiro setor: Gênero e raça nas OSCs.

[3] Frequência e/ou duração de tempo de trabalho perdido quando os funcionários não comparecem ao trabalho (Fernandes, 2013)

[4] Cassino, D., & Besen-Cassino, Y. (2019). Race, threat and workplace sexual harassment: The dynamics of harassment in the United States, 1997–2016. Gender, Work and Organization, 26(9), 1221–1240. https://doi.org/10.1111/gwao.12394

[5] GRC. (2021). Gender-disaggregated data at the participating organisations of the global research council: Results of a global survey.

[6] Think Eva. (2022). Assédio no Contexto do Mundo Corporativo – Think Eva. Think Eva,. https://thinkeva.com.br/pesquisas/assedio-no-contexto-do-mundo-corporativo/

Contato: [email protected]