Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Samuel Durso*

Nesta terça-feira (26) inicia a 242ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que definirá, entre outros aspectos da política econômica brasileira, a meta da taxa básica de juros do mercado nacional. A contar pelas expectativas do mercado, é provável que nos deparemos com mais um elevado aumento da Selic. Tanto o crescimento da inflação quanto a forte depreciação cambial da moeda brasileira deverão ser fatores a impactar a decisão do Copom.

O último resultado do relatório Focus indicou, pela 29ª semana consecutiva, um crescimento da expectativa de inflação para 2021, que na estimativa dos analistas deverá atingir o patamar de 8,96% no ano. Os últimos resultados do IPCA-15, divulgados nesta terça-feira (26), que representa uma prévia do índice oficial da inflação, corroboram com a preocupação do mercado. Em outubro, houve um aumento de 1,20% nos preços do mercado, representando a maior variação para o mês desde 1995. As principais altas do período ficaram para a categoria de transporte, com destaque para passagens aéreas (alta de 34,35%) e combustíveis (2,03%).

A alta da inflação não representa um problema exclusivamente brasileiro. Com o avanço da vacinação e a retomada da economia de diversos países, grandes pressões de demanda e a morosidade – intencional em alguns casos – para ajuste da oferta tem gerado gargalos na cadeia de suprimentos, justificando o aumento dos preços. Nos EUA, a expectativa de setembro do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano, era de que a inflação no país alcançasse 4,2% em 2021, um patamar elevado considerando o histórico do país.  

No Brasil, contudo, a depreciação cambial tem gerado novos agravantes para a situação inflacionária. Produtos que possuem o preço determinado no mercado internacional, como o petróleo por exemplo, têm ficado mais caros na medida em que o dólar se valoriza frente ao real. A instabilidade política, que deverá se agravar no próximo ano em função das eleições, tem sido uma das justificativas para o descolamento da taxa de câmbio. Outro agravante tem sido a expectativa dos investidores em relação aos rumos da economia internacional. Um possível aumento dos juros no mercado norte-americano tornará o investimento em países em desenvolvimento muito mais arriscado. Nesse cenário de incertezas, mesmo com a entrada de dólar pela exportação de commodities do setor agropecuário, que também se valorizaram no período, a depreciação cambial deverá permanecer no horizonte de curto prazo.

No último Focus divulgado no dia 25, ficou evidenciado, ainda, que o mercado já espera uma meta Selic na ordem de 8,75% a.a. para o final de 2021. Para atingir esse patamar seria necessário que o Copom aumentasse a taxa dos atuais 6,25% a.a. em 2,5 pontos percentuais (p.p.). Assim, como restam apenas duas reuniões para 2021, é provável que os próximos aumentos realizados pelo Copom sejam de mais de 1 p.p. cada. Para a 242ª reunião, que finalizará nesta quarta-feira, o mais provável será um aumento de 1,25 a 1,5 p.p.

Se, por um lado, a inflação e a desvalorização cambial exigem uma resposta rápida da nossa política monetária, de outro, será necessário ponderar o desaquecimento do mercado. Os últimos resultados obtidos para o varejo e indústria dão sinais de que a recuperação da economia brasileira está bem mais lenta do que o desejado. Ainda são mais de 14 milhões de desempregados, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Aumentar os juros nesse momento poderá ser um grande balde de água fria para o consumo e o investimento. O mercado já cogita, inclusive, uma situação de estagflação, quando o crescimento econômico é baixo e inflação é elevada.

*Economista-chefe do Denarius    

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