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Por Samuel Durso
Economista-chefe do Denarius

De acordo com os dados divulgados hoje (2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelo segundo trimestre consecutivo, a economia brasileira apresentou uma variação negativa na evolução do Produto Interno Bruto (PIB), quando comparado com o trimestre imediatamente anterior. De acordo com as ciências econômicas, esse fenômeno representa uma situação de recessão técnica. Mas o que isso significa efetivamente para o mercado?

Quando o país entra em recessão técnica há uma sinalização de que a economia tem passado por dificuldades que podem se agravar nos períodos subsequentes. É, portanto, um momento de alerta para o mercado. As razões que levam a uma recessão técnica podem gerar, no futuro, uma recessão real, momento em que os principais indicadores do mercado apresentam resultados desfavoráveis para o crescimento e desenvolvimento econômico. 

As razões que levaram a nossa economia a uma taxa negativa nos dois últimos resultados do PIB representam fatores externos à política econômica. No segundo trimestre de 2021, a queda na produção foi na ordem de -0,4% (após correções nos dados inicialmente divulgados pelo IBGE).  Na ocasião, o principal vilão foram os setores da agropecuária e indústria. Para o primeiro, a seca que assolou o país gerou a quebra na safra de produtos importantes para economia brasileira. Já para o segundo caso, a escassez verificada na cadeia de produção de alguns itens reduziu a produção do período, como para o ramo automotivo, por exemplo.

No segundo trimestre, a principal razão pela queda foi novamente o setor agropecuário. Neste caso, fatores climáticos adversos impactaram novamente a produtividade de importantes commodities do setor, como café, milho e cana de açúcar. O desempenho do setor foi 8% inferior ao do segundo trimestre de 2021 e 9% abaixo do desempenho verificado para o mesmo período de 2020.

A recessão técnica se torna um pouco mais preocupante na medida em que analisamos os demais resultados econômicos do país. As expectativas para a inflação seguem em alta, de acordo com o levantamento realizado semanalmente pelo Banco Central, mesmo com as constantes elevações na taxa básica de juros da economia brasileira (Selic) pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O mercado espera, atualmente, uma inflação oficial de 10,15% para o final de 2021 e de 5% para 2022.

É altamente provável que no próximo ano a economia brasileira tenha uma taxa básica de juros acima de 11%, conforme já sinalizado pelas últimas edições do Relatório Focus. O aumento da Selic tira estímulos do mercado, uma vez que deixa o acesso ao crédito mais caro e, portanto, restrito. Como consequência, espera-se uma redução no consumo das famílias e nos investimentos das empresas para o próximo ano, o que também tende a impactar negativamente no PIB.

Por fim, temos visto uma melhoria na geração de emprego nos últimos meses, com gradativa redução da taxa de desocupação. Contudo, ainda são mais de 13 milhões de brasileiros sem inserção no mercado de trabalho. A criação de novos postos de trabalho representa um entrave fundamental de ser superado para o crescimento econômico, uma vez que gera mais renda em circulação na economia. Apesar de serem positivos os últimos resultados dos principais indicadores de empregabilidade (CAGED e PNAD), temos visto um crescimento significativo dos postos informais na economia brasileira. Esse tipo de trabalho deixa o trabalhador mais vulnerável para a manutenção da renda no longo prazo, uma vez que inexistem garantias para a manutenção do vínculo empregatício. Além disso, a remuneração média do emprego tem apresentado constantes reduções, indicando que as famílias estão com menos recursos para o consumo no mercado.

Apesar de ser apenas um sinal de alerta, a recessão técnica evidenciada com os resultados para o PIB do terceiro trimestre de 2021 precisa ser encarada pelo governo com seriedade, mesmo tendo eventos adversos não controláveis economicamente. A economia brasileira apresenta um longo caminho para a recuperação dos impactos negativos causados pela Covid-19. A corrida eleitoral de 2022, que já está em andamento, terá a economia como o principal foco de discussão e debate!

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